O consumo de notícias passa por uma mudança estrutural em escala global. Pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo se tornaram mais populares do que a televisão e os sites ou aplicativos próprios de veículos jornalísticos como portas de entrada para a informação. A conclusão está no Digital News Report 2026, elaborado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford.
O relatório, publicado em 16 de junho de 2026, também identifica o crescimento do uso de chatbots de inteligência artificial para acompanhar acontecimentos e uma queda na confiança geral do público no jornalismo. Os dados indicam que a transformação não envolve apenas os formatos adotados pelas redações, mas também os ambientes em que as pessoas descobrem, consomem e compartilham notícias.
Redes sociais e vídeos ganham espaço
Segundo o resumo executivo do Digital News Report 2026, 54% das pessoas entrevistadas utilizam redes sociais e plataformas de vídeo para se informar. Quando os chatbots de inteligência artificial são incluídos nessa conta, o percentual chega a 56%. O resultado reforça o peso de ambientes digitais que combinam notícias, entretenimento, opinião e conteúdo produzido por usuários.
A mudança é ainda mais acentuada entre os jovens. Entre entrevistados de 18 a 24 anos, 52% afirmam que redes sociais, vídeos e chatbots são sua principal porta de entrada para as notícias. Nesse cenário, os chamados news creators passam a disputar atenção com jornalistas, jornais, emissoras, portais e outros veículos tradicionais, especialmente em formatos audiovisuais de curta duração.
O uso semanal de ferramentas como ChatGPT, Perplexity e Google Gemini para obter notícias também avançou. De acordo com o relatório, a proporção global subiu de 7% para 10% do público. A presença desses sistemas acrescenta uma nova camada à distribuição de informação, uma vez que o usuário pode receber respostas sintetizadas em vez de acessar diretamente a página original de um veículo.
Confiança em queda e aumento da evasão
Ao mesmo tempo em que novas plataformas ampliam o alcance das notícias, o relatório registra uma deterioração na relação do público com o jornalismo. A confiança global nas notícias caiu para 37%, o menor nível da série histórica iniciada em 2015. O levantamento também aponta que 42% dos entrevistados evitam notícias às vezes ou com frequência.
Os dados não indicam necessariamente que as pessoas deixaram de se interessar por informação. Eles mostram, porém, que parte do público escolhe quando, onde e em que formato deseja acompanhar os acontecimentos. A exposição constante a crises, conflitos e disputas políticas, somada à circulação de conteúdos de baixa qualidade, pode contribuir para o afastamento de parcelas da audiência, embora o relatório apresente o cenário principalmente como um desafio para o setor.
Dependência de plataformas afeta o tráfego
A mudança no comportamento da audiência tem impacto direto sobre a distribuição e a sustentabilidade dos veículos. Dados da Chartbeat citados pelo relatório apontam que o tráfego orgânico proveniente do Google para mais de 2.500 sites caiu 33% globalmente entre novembro de 2024 e novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a redução chegou a 38% no mesmo período.
A queda ajuda a explicar por que empresas jornalísticas estão investindo em vídeo, newsletters, podcasts, comunidades, aplicativos e canais próprios. A estratégia busca reduzir a dependência de plataformas externas e estabelecer relações mais diretas com os leitores e espectadores. Ainda assim, a presença em redes sociais e serviços de vídeo continua sendo importante para alcançar públicos que já consomem informação nesses ambientes.
Desafio para redações e profissionais
O cenário descrito pelo Reuters Institute exige que as redações adaptem linguagem, distribuição e formatos sem abandonar os critérios de apuração. A produção de vídeos, conteúdos para redes sociais e experiências com inteligência artificial pode ampliar o alcance do jornalismo, mas também aumenta a necessidade de transparência sobre autoria, fontes e métodos de verificação.
Para veículos, o desafio é equilibrar visibilidade em plataformas de terceiros com a construção de uma identidade editorial reconhecível. Para o público, a multiplicação de intermediários torna ainda mais importante identificar quem produziu uma informação, quais evidências foram utilizadas e se o conteúdo foi submetido a processos profissionais de checagem. O futuro do consumo de notícias, segundo os dados do relatório, será cada vez mais distribuído entre plataformas, mas a credibilidade continuará sendo um dos principais ativos do jornalismo.