Quarenta e uma organizações iraquianas de diferentes setores concordaram em formar uma coalizão nacional para enfrentar danos no ambiente digital e proteger a liberdade de expressão. A iniciativa reúne representantes da sociedade civil, imprensa, academia, juventude, entidades de defesa dos direitos das mulheres, criadores de conteúdo e outros atores cívicos.
A articulação foi divulgada pela UNESCO em 21 de setembro de 2026. O projeto conta com apoio da organização e financiamento da União Europeia, por meio do programa Social Media for Peace, voltado ao enfrentamento de ameaças digitais de forma alinhada aos direitos humanos.
Coalizão terá atuação multissetorial
As reuniões que deram origem ao grupo ocorreram em duas regiões do Iraque. O primeiro encontro foi realizado em Bagdá, em 18 de agosto de 2026. Depois, representantes participaram de reuniões em Sulaymaniyah, na Região do Curdistão iraquiano, nos dias 23 e 24 de agosto.
Segundo a UNESCO, os participantes discutiram a estrutura de governança da coalizão, os critérios para a entrada de novas organizações, as prioridades estratégicas e as formas de cooperação com autoridades públicas e plataformas digitais. A proposta é criar uma resposta coordenada para problemas que atingem usuários de redes sociais, jornalistas, comunicadores e grupos vulneráveis.
Entre os temas prioritários estão o discurso de ódio, a desinformação, as campanhas de incitação à violência, o assédio on-line e outras formas de conteúdo prejudicial. A coalizão também deverá trabalhar com alfabetização midiática e informacional, mecanismos de alerta precoce e ações conjuntas diante de ameaças digitais.
Monitoramento identificou 713 casos de conteúdo prejudicial
A formação da coalizão ocorre em um contexto de preocupação com o aumento de ataques e informações nocivas nas redes sociais do país. Em outro levantamento apoiado pela UNESCO, organizações locais monitoraram milhares de publicações e analisaram 713 casos de conteúdo prejudicial publicados principalmente no Facebook entre 5 e 29 de março de 2026.
De acordo com a UNESCO, o monitoramento apontou a presença de discurso de ódio, acusações de traição, desinformação e ataques direcionados a jornalistas, analistas e criadores de conteúdo. A iniciativa também ajudou organizações da sociedade civil a identificar padrões de risco e a discutir respostas coordenadas.
O cenário amplia os desafios para profissionais de imprensa e usuários que dependem das plataformas digitais para publicar, acessar e compartilhar informações. Em ambientes marcados por acusações e campanhas de ataque, jornalistas e comunicadores podem ficar mais expostos à intimidação, enquanto o público enfrenta maior dificuldade para distinguir conteúdos confiáveis de mensagens manipuladoras.
Liberdade de expressão é apontada como princípio
Um dos principais pontos da proposta é combater conteúdos nocivos sem transformar a moderação em censura. A coalizão deverá orientar sua atuação por padrões internacionais de direitos humanos, liberdade de expressão e acesso à informação, segundo a organização internacional.
Esse equilíbrio é especialmente relevante para o jornalismo. Medidas contra discurso de ódio, incitação à violência e assédio podem reduzir riscos concretos no ambiente digital, mas respostas desproporcionais também podem limitar o debate público e dificultar o trabalho da imprensa. Por isso, a participação de organizações civis, pesquisadores, veículos de comunicação e criadores de conteúdo busca ampliar o controle social sobre as decisões.
A proposta também prevê cooperação com autoridades públicas e plataformas digitais. A ideia é que diferentes setores compartilhem informações sobre ameaças, contribuam para a identificação de conteúdos prejudiciais e desenvolvam mecanismos de prevenção. A responsabilidade, nesse modelo, não fica concentrada apenas no governo ou nas empresas de tecnologia.
Desafio envolve segurança digital e acesso à informação
Em uma declaração sobre direitos digitais e violência on-line, o INSM Iraq defendeu a construção de um ambiente digital mais seguro e destacou a responsabilidade compartilhada entre governo, imprensa, plataformas e usuários. A discussão reforça a necessidade de combinar proteção contra abusos com garantias para a circulação de informações.
A experiência iraquiana chama atenção por reunir organizações de áreas políticas, sociais e profissionais distintas em torno de uma agenda comum. Ao conectar Bagdá e Sulaymaniyah, a iniciativa procura estabelecer uma estrutura nacional para responder a riscos que atravessam fronteiras regionais e afetam a comunicação pública em todo o país.
Para o jornalismo e a comunicação digital, o caso mostra como coalizões multissetoriais podem participar do combate à desinformação e da proteção de grupos vulneráveis. O próximo passo será transformar as prioridades discutidas nas reuniões em mecanismos permanentes de governança, monitoramento e cooperação, preservando ao mesmo tempo o direito de informar, criticar e participar do debate público.