Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação no campo da saúde mental e das relações familiares, permite compreender uma dimensão frequentemente invisível da violência doméstica: o silêncio que a envolve. Falar sobre o que se viveu dentro de um relacionamento abusivo é, para muitas mulheres, uma das tarefas mais difíceis que existem. O medo de não ser acreditada, a vergonha de expor o que acontece entre quatro paredes e o temor das consequências da revelação constroem um silêncio que, longe de proteger, tende a prolongar e agravar o sofrimento emocional das vítimas. Entender como esse silêncio opera é parte essencial de qualquer esforço de apoio genuíno.
A seguir, veja como esse cenário se desenvolve e quais fatores ajudam a explicar seus impactos.
Por que o silêncio em torno da violência doméstica se perpetua mesmo diante do sofrimento das vítimas?
O silêncio em torno da violência doméstica não é acidental. Ele é, em grande medida, produzido pela própria dinâmica do abuso. Agressores frequentemente utilizam ameaças explícitas ou implícitas para garantir que o que acontece dentro da relação permaneça fora do alcance de familiares, amigos e instituições. Esse controle sobre a narrativa é parte integrante da violência psicológica e funciona como um mecanismo de manutenção do poder dentro do relacionamento.
Mas o silêncio também tem raízes em fatores que independem da vontade do agressor. A vergonha social, o medo de não ser acreditada, a preocupação com o julgamento de quem poderia ser um aliado e a dúvida sobre a própria percepção da situação são forças que atuam de dentro para fora, tornando o pedido de ajuda um ato de coragem que nem sempre encontra as condições necessárias para acontecer.
Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, o silêncio que cerca a violência doméstica é também alimentado por narrativas culturais que tratam o que acontece dentro de casa como um assunto privado, sobre o qual o mundo exterior não teria o direito de opinar. Essa crença, quando internalizada pela própria vítima, transforma o silêncio em uma espécie de lealdade mal colocada, que protege a situação de violência em vez de proteger quem a sofre.
Como o silêncio afeta a saúde mental de quem sofreu violência?
Carregar sozinha o peso de uma experiência de violência tem consequências reais sobre a saúde mental. O isolamento que o silêncio produz, a impossibilidade de nomear e compartilhar o que se vive e a sensação de que ninguém ao redor saberia compreender ou ajudar criam condições que agravam o sofrimento emocional de formas que vão muito além do evento violento em si.
A ansiedade persistente, a dificuldade de confiar nos outros, os estados de alerta constante e a sensação de viver em uma realidade paralela, separada da vida pública que se apresenta ao mundo, são manifestações possíveis desse isolamento interno. Com o tempo, o esforço de manter o silêncio pode se tornar tão desgastante quanto o próprio sofrimento que ele encobre.
Sob a perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, a ausência de um espaço de fala tem impacto direto sobre a capacidade de elaboração emocional. O que não pode ser dito dificilmente pode ser processado. E o que não é processado tende a se manifestar de outras formas, em sintomas físicos, em padrões relacionais repetitivos, em dificuldades que a própria pessoa muitas vezes não consegue relacionar ao que viveu.
Frustrações na busca por ajuda levam ao silêncio como resposta mais segura
O silêncio das vítimas não existe no vácuo. Ele é sustentado, em parte, por um silêncio mais amplo, de instituições que minimizam a violência doméstica, de redes de apoio que não sabem como abordar o tema sem julgar, de comunidades que preferem não ver o que acontece por trás das portas fechadas. Quando o entorno social não oferece condições seguras para a fala, o silêncio individual se torna a resposta mais racional disponível.
A experiência de tentar falar e não ser acreditada, de buscar ajuda e encontrar respostas que minimizam o sofrimento ou transferem a responsabilidade para a vítima, reforça a percepção de que o silêncio é mais seguro do que a revelação. Cada experiência frustrada de busca por apoio aumenta a probabilidade de que novas tentativas sejam adiadas ou abandonadas.
Conforme analisa Taiza Tosatt Eleoterio, criar condições para que o silêncio possa ser rompido é uma responsabilidade que pertence tanto ao entorno imediato das vítimas quanto às instituições e às políticas públicas que deveriam garantir espaços seguros de acolhimento. A escuta sem julgamento, a crença nas experiências relatadas e a ausência de pressão por decisões imediatas são condições mínimas para que esse rompimento seja possível.
O primeiro passo para a recuperação: como falar sobre violência transforma a experiência de sofrimento
O momento em que uma mulher em situação de violência doméstica consegue, pela primeira vez, falar sobre o que viveu é frequentemente descrito como um ponto de inflexão. Não porque a revelação resolva a situação de forma imediata, mas porque o ato de nomear a experiência para outra pessoa começa a transformar a relação com ela. O sofrimento deixa de ser um segredo inteiramente solitário e passa a existir em um espaço compartilhado, onde pode, gradualmente, ser elaborado.
A qualidade do acolhimento neste momento é determinante. Uma resposta que valide a experiência, que não pressione por decisões e que ofereça presença genuína cria condições muito diferentes de uma resposta que minimiza, questiona ou sobrecarrega quem acabou de encontrar a coragem de falar. O impacto do primeiro pedido de ajuda sobre a disposição de continuar buscando suporte é significativo e não deve ser subestimado.
De acordo com análise de Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico pode oferecer um espaço privilegiado para esse processo de construção da fala sobre experiências de violência. A escuta qualificada, a ausência de julgamento e o respeito pelo tempo de cada pessoa criam condições em que o que estava silenciado pode, progressivamente, encontrar forma e sentido.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
