Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, observa que os aterros sanitários ocupam uma posição paradoxal no debate ambiental contemporâneo: são frequentemente apresentados como solução inadequada para o problema dos resíduos sólidos, mas continuam sendo a destinação final mais utilizada no mundo, inclusive nos países com sistemas de gestão mais avançados.
Compreender como esses equipamentos funcionam, quais são seus limites reais e por que a dependência em relação a eles persiste mesmo diante de alternativas tecnológicas disponíveis é essencial para qualquer debate sério sobre o futuro da gestão de resíduos urbanos.
O que diferencia um aterro sanitário de um lixão?
A confusão entre aterros sanitários e lixões é comum no debate público, mas as diferenças técnicas e ambientais entre eles são profundas e determinantes para o impacto que cada modelo causa sobre o solo, os recursos hídricos e a atmosfera. Na prática, o lixão é uma área de disposição a céu aberto sem qualquer infraestrutura de controle, onde os resíduos são simplesmente depositados sem impermeabilização do solo, sem sistema de coleta de chorume e sem controle das emissões de gases. O aterro sanitário, por outro lado, é uma obra de engenharia complexa que inclui múltiplas camadas de impermeabilização na base, sistemas de coleta e tratamento do chorume gerado pela decomposição dos resíduos e infraestrutura de captação dos gases produzidos, especialmente o metano.
Conforme esclarece Marcello José Abbud, essa diferença estrutural tem implicações diretas sobre o impacto ambiental de cada modelo ao longo do tempo. De fato, um aterro sanitário bem operado contém os principais vetores de contaminação gerados pela decomposição dos resíduos, evitando que chorume atinja os lençóis freáticos e que o metano seja liberado diretamente na atmosfera. Um lixão, ao contrário, contamina progressivamente o solo e os recursos hídricos do entorno e contribui de forma descontrolada para as emissões de gases de efeito estufa durante toda sua vida operacional e por décadas após seu encerramento.

Como funciona um aterro sanitário moderno?
Um aterro sanitário moderno é dividido em células de disposição, unidades independentes que são preenchidas, cobertas e monitoradas de forma sequencial ao longo da vida útil do empreendimento. Antes do início das operações, a base e as laterais de cada célula recebem um sistema de impermeabilização composto por camadas de argila compactada e geomembranas sintéticas que impedem a percolação do chorume para o solo. Sobre essa base impermeabilizada, instala-se uma rede de drenos que conduz o chorume gerado pela decomposição dos resíduos até estações de tratamento específicas.
Segundo Marcello José Abbud, o sistema de captação de biogás é outro componente essencial dos aterros modernos. À medida que os resíduos orgânicos se decompõem em condições anaeróbicas, produzem metano e dióxido de carbono em volumes expressivos. Redes de drenos verticais e horizontais instaladas nas células em operação captam esses gases e os conduzem para unidades de queima ou de aproveitamento energético, evitando sua liberação direta na atmosfera e, em alguns casos, gerando eletricidade ou calor a partir do biogás captado.
Por que ainda dependemos dos aterros sanitários?
A dependência em relação aos aterros sanitários persiste por razões que vão além da ausência de vontade política ou de investimento em alternativas. Tecnologias como incineração com recuperação de energia, pirólise e gaseificação são capazes de tratar frações significativas dos resíduos urbanos sem recorrer ao aterramento, mas nenhuma delas elimina completamente a necessidade de disposição final de rejeitos, os materiais que não podem ser reciclados, compostados ou tratados termicamente de forma viável. Mesmo nos países com sistemas de gestão mais avançados, como Alemanha, Japão e Suécia, os aterros sanitários continuam sendo utilizados para receber esses rejeitos finais.
Na avaliação de Marcello José Abbud, o caminho mais realista para reduzir a dependência em relação aos aterros sanitários passa pela combinação entre aumento das taxas de reciclagem e compostagem, adoção de tecnologias de valorização energética para os resíduos não recicláveis e investimento em design circular que reduza na origem o volume de rejeitos gerados. Enquanto essas transições não atingem escala suficiente, os aterros sanitários permanecem como componente necessário e, quando bem operados, ambientalmente adequados dentro dos sistemas de gestão de resíduos.