Uso sem acompanhamento médico e sem exercício estruturado está associado a perda de massa magra e falta de vitaminas, alerta endocrinologista
O sucesso das canetas emagrecedoras no controle da obesidade trouxe, junto, um efeito colateral que a comunidade médica vem tentando explicar melhor ao público: a perda de massa muscular. Segundo alerta divulgado nesta semana pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, o uso desses medicamentos sem supervisão adequada pode causar deficiência de micronutrientes e perda excessiva de músculo, principalmente quando não há mudança nos hábitos de alimentação e de atividade física. A informação é relevante para qualquer pessoa que já tenha considerado usar esse tipo de tratamento sem entender o papel que o exercício físico ocupa nesse processo.
Por que o músculo desaparece junto com o peso
Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP 1, populares como Ozempic e Mounjaro, atuam reduzindo o apetite e aumentando a sensação de saciedade. O resultado é uma perda de peso rápida, muitas vezes comparável à obtida em cirurgias bariátricas. O problema é que parte considerável dessa perda pode vir do tecido muscular, e não apenas da gordura. Marcio Mancini, coordenador do Departamento de Farmacoterapia da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, explica que isso ocorre sobretudo quando o paciente reduz a ingestão calórica de forma abrupta sem manter uma rotina de treinos que estimule a preservação muscular.
Essa informação ganha peso quando observada em escala. O Brasil é hoje o segundo país do mundo em volume de buscas por Ozempic e Mounjaro no Google, e o mercado formal desses medicamentos somava R$ 14,6 bilhões em doze meses até abril de 2026, um crescimento de 110% na comparação anual. Ou seja, o alerta sobre perda muscular não é um detalhe restrito a poucos pacientes, mas uma questão de saúde pública que acompanha um fenômeno de consumo em expansão acelerada.
O papel do exercício físico no tratamento
Especialistas são unânimes ao afirmar que a atividade física regular, especialmente o treinamento de força, funciona como proteção contra a perda de massa magra durante o uso das canetas emagrecedoras. O acompanhamento de um profissional de educação física ajuda a manter a musculatura ativa enquanto o corpo passa pela redução de peso, e essa combinação costuma trazer resultados mais consistentes a longo prazo do que o uso isolado do medicamento. Além do efeito estético, a preservação muscular está diretamente ligada à saúde metabólica e à capacidade funcional, principalmente entre pessoas de mais idade.
Outro ponto de atenção levantado por médicos é a automedicação. Desde 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária passou a exigir receita com retenção para a compra desses medicamentos, uma resposta ao número crescente de eventos adversos registrados fora das indicações aprovadas. Mesmo assim, o uso sem orientação continua sendo relatado por profissionais de saúde, o que reforça a necessidade de que qualquer tratamento seja acompanhado por endocrinologista, com avaliação da dose adequada e monitoramento contínuo.
O que muda na prática para quem já usa ou pensa em usar
Para quem já está em tratamento com canetas emagrecedoras, a recomendação médica é simples de entender, ainda que exija disciplina: incluir treino de força na rotina, priorizar consumo adequado de proteína e manter acompanhamento regular com endocrinologista para monitorar a composição corporal, não apenas o número na balança. A perda de peso isolada, sem essas medidas, tende a resultar em um corpo mais frágil, ainda que mais magro.
O tema deve continuar em discussão à medida que o número de usuários cresce no país e novos medicamentos da mesma classe recebem registro da Anvisa. A tendência apontada por entidades do setor fitness é que academias e estúdios passem a desenvolver programas específicos voltados a esse público, unindo acompanhamento médico e treino estruturado como parte do mesmo tratamento.
Fontes: