Um estudo publicado na The Lancet Regional Health aponta que a obesidade superou a hipertensão como principal fator de risco no país, mas a resposta começa pela vida cotidiana
Há algumas décadas, quando alguém perguntava qual era o maior risco à saúde da população brasileira, a resposta quase automática era hipertensão. Esse cenário mudou. A obesidade se tornou o maior fator de risco para a saúde no Brasil, superando a pressão alta, que ocupou esse posto por décadas. A conclusão veio do Estudo Global sobre Carga de Doenças, publicado na revista científica The Lancet Regional Health Americas, envolvendo pesquisadores de mais de 200 países. Agência Brasil
Os números que sustentam essa mudança são difíceis de ignorar. A obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados do Vigitel, inquérito anual do Ministério da Saúde. Atualmente, 25,7% dos adultos brasileiros vivem com a doença, o equivalente a 1 em cada 4 pessoas. Quando considerado o sobrepeso, o índice atinge 62,6% da população. O Brasil, portanto, supera a média mundial: de acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 16% dos adultos no planeta vivem com obesidade e 43% apresentam sobrepeso, proporções inferiores às registradas no país. AfyaAfya
Entender por que esse problema avançou tão rapidamente, e o que cada pessoa pode fazer diante dele, é a pergunta que mais importa agora.
Por que a obesidade cresceu tanto no Brasil em tão pouco tempo?
O levantamento enfatiza que a população passou por grandes mudanças no estilo de vida nas últimas décadas, como o aumento da urbanização. Esse cenário contribuiu para reduzir os níveis de atividade física, adotar dietas hipercalóricas, ricas em sal e com excesso de alimentos ultraprocessados. Não se trata de um único fator, mas de uma combinação de hábitos que se instalou gradualmente no cotidiano das famílias brasileiras. Agência Brasil
Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas indica que idade, condições socioeconômicas e falta de atividade física são os principais fatores associados à prevalência da obesidade no Brasil. O sedentarismo, em especial, aparece como elemento central nessa equação. Modos de transporte que dispensam o esforço físico, rotinas de trabalho cada vez mais sedentárias e a redução dos espaços de lazer ativo contribuem diretamente para o avanço da doença. Agência Brasil
O perfil de quem mais adoece também chama atenção. O avanço foi mais expressivo entre adultos de 25 a 34 anos e entre mulheres, além de indivíduos com ensino médio completo ou superior incompleto. Segundo a endocrinologista Dra. Juliane Braziliano, citada pelo Portal Afya, entre os jovens há uma cultura marcada pelo imediatismo e pela busca por praticidade, com menor envolvimento com o preparo da própria comida, ao mesmo tempo em que as redes sociais ampliam a exposição a alimentos ultraprocessados de fácil acesso. Afya
Dados de 2025 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), baseados nos atendimentos da atenção primária do SUS, sugerem um quadro ainda mais grave fora das capitais: 36,3% dos adultos acompanhados tinham obesidade e 70,9% estavam acima do peso. Isso indica que o problema não se concentra apenas nas grandes metrópoles, mas se distribui por todo o território nacional. Afya
O que a obesidade causa e por que ela é classificada como doença crônica
“A obesidade não é apenas excesso de peso, mas uma doença crônica inflamatória e metabólica que aumenta simultaneamente o risco de diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, AVC e vários tipos de câncer”, segundo o endocrinologista Alexandre Hohl, membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Agência Brasil
Esse entendimento muda completamente a forma como se deve encarar o tema. A obesidade deixou de ser tratada apenas como uma questão estética ou de força de vontade para ser reconhecida como uma condição de saúde que demanda acompanhamento médico, nutricional e, muitas vezes, psicológico. O estigma social em torno do peso ainda atrasa o diagnóstico e o tratamento em muitos casos, o que agrava os desfechos clínicos.
Pesquisadores da FGV realizaram uma projeção sobre a evolução da obesidade no país e constataram que, caso a doença permaneça com a taxa de crescimento atual, em 2030 vai atingir 24,5% da população. Apesar de já estar nesse patamar antes do previsto, a projeção reforça que, sem mudanças estruturais nos hábitos da população e nas políticas públicas de saúde, o cenário tende a piorar nas próximas décadas. Agência Brasil
A comparação histórica também é reveladora: em 1990, os três maiores fatores de risco à saúde no Brasil eram hipertensão, tabagismo e poluição por materiais particulados. O IMC elevado figurava em sétimo lugar. Em 2023, passou a ocupar a primeira posição, após crescimento constante no risco atribuído que acumulou 15,3% desde 1990. A velocidade dessa transformação é um sinal de alerta para gestores de saúde, pesquisadores e para cada brasileiro. Agência Brasil
O que cada pessoa pode fazer para reverter essa tendência
Diante de um problema de escala tão grande, é natural que a sensação de impotência surja. No entanto, os dados científicos apontam caminhos concretos. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Plos One, analisado pela CNN Brasil, mostrou que sono, alimentação e atividade física, chamados de “os grandes três” da saúde, estão diretamente associados a níveis mais elevados de bem-estar, independentemente da presença de sintomas depressivos. CNN Brasil
A atividade física regular ocupa papel central nessa equação. O Guia de Atividade Física do Ministério da Saúde, disponível na Biblioteca Virtual em Saúde, aponta que os benefícios da prática regular de exercício incluem o controle do peso, a diminuição da chance de desenvolvimento de alguns tipos de cânceres e a redução do risco de doenças crônicas como diabetes e hipertensão. Esses benefícios são mais expressivos quando os hábitos saudáveis se combinam ao longo do tempo. BVS Saúde
O movimento fitness no Brasil ganha força justamente nesse contexto. Menos de 5% dos brasileiros são frequentadores regulares de academias, e o setor movimenta cerca de R$ 17 bilhões por ano, com crescimento constante. O desafio está em ampliar o acesso, reduzir barreiras econômicas e culturais, e transformar a atividade física em hábito coletivo, não apenas em escolha individual. Consultar um médico e profissionais de saúde é o primeiro passo para quem deseja iniciar um processo de mudança com segurança e de forma sustentável. Tecnofit
Fontes: Agência Brasil – https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/obesidade-se-torna-principal-fator-de-risco-saude-no-brasil | Portal Afya – https://portal.afya.com.br/endocrinologia/mapa-da-obesidade-brasil-tem-alta-de-118-em-18-anos | CNN Brasil – https://www.cnnbrasil.com.br/saude/vida-saudavel-em-2026-o-que-a-ciencia-diz-sobre-sono-dieta-e-movimento/ | Agência Brasil FGV – https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2023-04/fgv-idade-renda-e-sedentarismo-sao-principais-fatores-para-obesidade
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
